Num breu profundo, em negrume espesso
mergulha a Pena um poeta, insigne.
Plena, aplastra-a, um longo peplo,
a escuridão na sala, esvoaçante,
em derredor de Vela projetada:
o recinto faz-se novo, aclarado,
roubado o véu que pudoroso usava.
Volve-lhe, então, o poeta excedente
Volve-lhe, então, o poeta excedente
com que a ponta há pouco revestira,
pois que recubra onde mais se lhe envergonhe.
Sobre o papel, então, a tinta deita,
em verbo encarna o descoberto entorno.
Mas não se engane, homem, torpe e ufano,
Mas não se engane, homem, torpe e ufano,
ter do Mundo registado a essência,
ou da Vela possuir a força:
tomada a sombra como substância,
que antes tudo em seu redor cobria,
não saberás jamais, em teu poema,
qual seja poeta ou sala
ou Pena ou Vela ou Mundo,
vestido, apenas, à Dama que só a ti se despe.
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