26 julho, 2014

A Pena


Num breu profundo, em negrume espesso
mergulha a Pena um poeta, insigne.
Plena, aplastra-a, um longo peplo,
a escuridão na sala, esvoaçante, 
em derredor de Vela projetada: 
o recinto faz-se novo, aclarado, 
roubado o véu que pudoroso usava.

Volve-lhe, então, o poeta excedente
com que a ponta há pouco revestira, 
pois que recubra onde mais se lhe envergonhe. 
Sobre o papel, então, a tinta deita, 
em verbo encarna o descoberto entorno.

Mas não se engane, homem, torpe e ufano, 
ter do Mundo registado a essência, 
ou da Vela possuir a força: 
tomada a sombra como substância, 
que antes tudo em seu redor cobria, 
não saberás jamais, em teu poema, 
qual seja poeta ou sala
 ou Pena ou Vela ou Mundo, 
vestido, apenas, à Dama que só a ti se despe.

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