08 janeiro, 2020

Uranium 235



Todos os dias, uns milhões de estrelas morrem.
Tem o universo uma cadeia elementar:
Tudo o que é precioso é puro pó de estrelas,
E também tudo o que é mais pobre.

Porém, eu sou capaz de em mim aproximar
Preciosidade de ouro e morte de pobreza,
Num corpo que dimana indiferentemente
O caos, que transita pelo ar.

Quem encontar-me por acaso há-de ter medo
E curiosidade, e, então, vir lentamente
Ao meu encontro. O meu abraço, devagar,
Há de mudá-lo. O meu segredo

É que ele morrerá mudando. Ele não sente:
O meu carinho move entranhas, faz brotar
Órgãos inexistentes, todavia inúteis.
Este é, contudo, o meu presente.

Sou raro, ah! E como o raro é sempre solitário...
Quisera eu ser como outras coisas, bem mais fúteis,
Que sempre encontram uso mais seguro. Opróbrio
É ser fatal. Porque o que é raro

Custa caro: verdade amarga deste mundo.
Eu vivo só do mal, o mal que sou eu próprio,
E que, ao viver, sou mais nocivo do que o ópio
E morto, eu peso como o chumbo.

25 dezembro, 2018

Noël Scéptique (Jules Laforgue)


Noël! Noël! J'entends les cloches dans la nuit...
Et j'ai sur ces feuillets sans foi pose ma plume:
Ô souvenirs, chantez! Tout mon orgueil s'enfuit,
Et je me sens repris de ma grande amertume.

Ah! Ces voix dans la nuit chantant "Noël! Noël!"
M'apportent de la nef qui, là-bas, s'illumine
Un si tendre, un si doux reproche maternel
Que mon cœur trop gonflé crève dans ma poitrine.

Et j'entends longtemps les cloches dans la nuit...
Je suis le paria de la famille humaine,
À qui le vent apporte en sa sale reduit
La poignante rumeur d'une fête lointaine.

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Natal Cético


"É natal! É natal!" Oiço os sinos na noite...
Nestas folhas sem fé, teço um texto, escritura:
-- Canta, ó memória! O meu orgulho todo foi-se,
e sinto remorder-me uma grande amargura.

Estas vozes na noite a cantar "É natal!"
vêm trazer lá debaixo, ah! -- neves cintilando --
o tão terno e tão doce sermão maternal,
o inchaço-coração, meu peito, lascerando.

E ainda muito tempo oiço os sinos na noite...
Não sou senão um pária às famílias humanas,
ao qual, em sua sala exígua, o vento trouxe
o pungente rumor de uma festa: distância.

16 dezembro, 2018

Outro aniversário



Meu corpo nu hoje está triste.
A minha nuca empurra o crânio para frente,
e minha testa, outrora em riste,
tomba. Vejo os meus pés abaixo e o quanto mentem
'star no chão, 'stão é flutuando,
isso sim; pois é hoje o dia dos meus anos.

Mas, se flutuam pés, o corpo
afunda, pesa e me constrange numa hedionda
bola, na qual o rosto ao dorso
cola-se, e ver-me o umbigo assim, de perto, assombra
os olhos meus, antes distantes.
Miro-me; pois é hoje o dia dos meus anos.

Sou fruto. E o fruto podre não
se faz notar enquanto ele - árvore - inda pende
alto, num galho. Há precisão
de ser mordido, o gosto amargo, o odor pungente
se lhe sentir, ou de, tombando,
partir-se; enquanto o fruto proibido, quando

ainda no pé, já se sabia
proibido. Sou fruto apenas, um mau fruto.
Doem-me as costas porque sintam
como é pesado o tronco ao qual, içado, eu me uno.
Saudades vêm-me de ser plano
outra vez; pois é hoje o dia dos meus anos.

É hoje, é hoje, eu mais e mais
me encolho; desnascer, porém, não é possível...
Renascer? Eu não sei. Jamais
eu tinha visto em mim estes dedos feridos,
as pústulas nos braços, manchas,
as unhas de meus pés tão longas, como lanças,

e percebido o quanto fere
caminhar. Envelheço, envelheço, envelheço...
Acabrunhado, as minhas pernas
sentem cócegas, pois, cabeça entre os joelhos,
cabelos roçam nelas. Pranto
escorre-me a cobrir-me a face, um fino manto

a escancarar minha tristeza.
Um membro flácido esparrama-se, cansado,
e dorme. As coxas se retesam,
as nádegas sorriem; de onde vem-me ao naso
o doce aroma de meu ânus.
Ó doce aroma, ó doce aroma, o meu aroma,
o qual somente eu sinto e assoma
apenas neste dia, o dia dos meus anos.

06 dezembro, 2018

Balada



Quereria ter um dia
mil-e-um poemas de cor
p'ra os recitar, em seguida,
sofra sede ou passe fome,
linha a linha, linha a linha,
mastigando cada estrofe.
Não beber senão poesia
por que logo venha a morte.

Diz-se que os corpos definham,
sem alimento, e consomem
a si mesmos: a farinha
e o próprio fermento. Sofrem
lentamente, enquanto findam,
mas minh'alma não comovem.
Eu só beberei poesia
por que logo venha a morte.

Diz-se de quem se resigna
assim: "é covarde", "foge".
Não sou. Não há outra sina
que essa à qual minh'alma corre;
um bom poema apazigua,
distrai-me, se tudo dói-me.
Eu só beberei poesia
por que logo venha a morte.

E quando olhos baços, frias
mãos, frios lábios, conforte-me
só ter bebido poesia
até viesse-me a morte.

29 novembro, 2018

O homem-bomba



O meu amor é incompreendido.
É eternidade mas sem duração.
Dizem que almejo algumas virgens,
Setenta e duas virgens. É mentira.
Eu nunca as desejei, pois não
Sentem dor ou prazer. Mesmo eu o não sinto.
Morro virgem: minha primeira vez
É sempre a última, e o abraço
Dos meus braços é sempre despedida.
Que eu ame um carro, talvez,
Ele se explode e, pelos ares, aros,
Rodando, vão-se junto a mim, ou
Do que sobrou. Meu amor se reparte,
A inflamar-se em toda parte.
Esta é uma arte de amar somente minha:

O que eu mais ame morrerá comigo.

16 novembro, 2018

Mowing (Robert Frost)



There was never a sound beside the wood but one,
And that was my long scythe whispering to the ground.
What was it it whispered? I knew not well myself;
Perhaps it was something about the heat of the sun,
Something, perhaps, about the lack of sound—
And that was why it whispered and did not speak.
It was no dream of the gift of idle hours,
Or easy gold at the hand of fay or elf:
Anything more than the truth would have seemed too weak
To the earnest love that laid the swale in rows,
Not without feeble-pointed spikes of flowers
(Pale orchises), and scared a bright green snake.
The fact is the sweetest dream that labor knows.
My long scythe whispered and left the hay to make.

_________
Segadura


Não se ouvia na relva outro som, que não fosse
o som da longa foice a ciciar ao chão.
E ciciava o quê? Eu mesmo o não sabia:
algo sobre o calor do sol, talvez, ou sobre
o som ausente ali, quem sabe? e por que não?
Talvez por isso ciciasse e não dissesse.
Não era um simples sonho, vindo às horas vagas,
ou ouro que uma fada ou elfa oferecia.
Quaisquer coisas além da verdade parecem
ser muito aquém do amor de quem, ainda embora
d'orquídeas deixe ali parcos espinhos, valas
cave, em fila, e uma verde serpente afugente.
O fato é o mais dileto sonho do labor. A
minha foice cicia e deixa estar o feno.

12 novembro, 2018

The River-Merchant's Wife: a Letter (Ezra Pound)

After Li Po

While my hair was still cut straight across my forehead
I played about the front gate, pulling flowers.
You came by on bamboo stilts, playing horse,
You walked about my seat, playing with blue plums.
And we went on living in the village of Chōkan:
Two small people, without dislike or suspicion.
At fourteen I married My Lord you.
I never laughed, being bashful.
Lowering my head, I looked at the wall.
Called to, a thousand times, I never looked back.

At fifteen I stopped scowling,
I desired my dust to be mingled with yours
Forever and forever, and forever.
Why should I climb the look out?

At sixteen you departed
You went into far Ku-tō-en, by the river of swirling eddies,
And you have been gone five months.
The monkeys make sorrowful noise overhead.

You dragged your feet when you went out.
By the gate now, the moss is grown, the different mosses,
Too deep to clear them away!
The leaves fall early this autumn, in wind.
The paired butterflies are already yellow with August
Over the grass in the West garden;
They hurt me.
I grow older.
If you are coming down through the narrows of the river Kiang,
Please let me know beforehand,
And I will come out to meet you
As far as Chō-fū-Sa.

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Mulher do mercador do rio: a carta


Cabelo ainda rente à minha nuca,
eu, a brincar perto ao portal,
desfolho as flores. Montado em bambus,
vem você, que brinca "a cavalo",
e achega-se a brincar co'azuis ameixas.
A vida em vila de Chokan:
dois pequenos, sem despeito ou suspeitas.

Casei consigo aos catorze anos,
ó meu Senhor. Severa, eu não sorria.
Cabisbaixa, olhava as paredes
e, ainda que chamassem-me mil vezes,
sempre costas, não atendia.

Aos quinze, desfranziu-se-me o meu cenho.
Quis misturassem-nos as cinzas
eterna e eterna e eterna e eternamente.
Por que subir à torre de vigia?

Partiste.
                 Eu tinha dezesseis.
Rumo a Ku-to-en, desceste o rio-moinho.
Este será o quinto mês.
É doloroso o som dos macaquinhos.

Calcaste os pés quando saíste.
No pórtico, hoje, há fungos fundos, densos,
que os remover não é possível!
P'r'Outono, as folhas caem cedo, ao vento.
Pares de borboletas descem,
(Agosto!) já douradas, sobre a grama
do Jardim Ocidental.
                                        Ferem-me.
Eu envelheço.

                           Tu, se acaso andas,
voltando, no estreito rio Kiang,
cede-me a graça de avisar:
hei de encontrar-te, ainda que distante,
distante como Cho-fu-Sa.